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Come From Away – Encontrando o amor no meio de lugar nenhum

No dia 11 de setembro de 2001, o mundo parou quando aviões se chocaram contra as torres do World Trade Center, em Nova York, e um estado de pânico e medo se instalou em corações por todo o globo. Enquanto todos acompanhavam os resgates e se desesperavam com a falta de informações, centenas de aviões eram desviados e precisavam de aeroportos para pousar, já que o espaço aéreo americano foi fechado por segurança.

Dentre esses, 38 aeronaves foram encaminhadas para o aeroporto da cidade de Gander, na ilha de Newfoundland (Canadá), um pequeno município de 11 mil habitantes que subitamente teve que ver sua população quase dobrar com a chegada de 7 mil passageiros, que sequer sabiam onde estavam ou quando voltariam para casa. Como essa população reagiu à chegada dessas pessoas? Com amor.

Essa é a história real que inspirou Come From Away, um pequeno musical com banda reduzida em cena, poucos adereços e apenas 12 atores, que aos poucos está se tornando um dos grandes favoritos para o Tony de 2017. A peça conta em apenas um ato a história de todas essas pessoas, desde o desespero dos passageiros sem saber o que irá acontecer até o esforço do adorável povo simples da cidade que faz de tudo para que os visitantes se sintam em casa durante um dos momentos mais difíceis de suas vidas.

Idealizada em 2015 por Irene Sankoff e David Hein, a peça começou com temporadas no La Jolla e em Seattle até tomar forma completa no Alexandra Theatre (Toronto) em 2016. Seu processo de criação seguiu o trabalho de diversas outras obras intimistas com extensos workshops e colaboração do elenco no desenvolvimento, já que, como eles mesmo dizem, são 12 atores para interpretar 18 mil personagens. Entre os atores que estão trabalhando com o material desde o início, o destaque fica para Jenn Colella (Chaplin e If/Then) e Rodney Hicks (Rent), mas em meio a tantos personagens diferentes, o elenco todo precisa (e consegue) realizar um trabalho em uníssono e com total confiança uns nos outros.

E é aí que vive a magia do musical, em seus atores. Assim como tantas outras peças já citadas por nós em outros artigos, Come From Away é um trabalho de 12 pessoas apresentando lindas histórias e nos emocionando, contando apenas com seu talento e esforço. Desde a história de uma mãe desesperada com o filho bombeiro em Nova York que não atende ao telefone, do passageiro do Oriente Médio que sofre preconceito e desconfiança das outras pessoas presentes, até a de uma piloto que carrega o fardo e orgulho de ser a primeira mulher a pilotar um avião de uma grande companhia aérea comercial. São diversas histórias embaladas pelo ritmo da música folk/celta (característica do povo da região de Newfoundland) que vão nos cativando e nos levando através de diversas emoções diferentes.

Um musical para rir, para chorar, para se emocionar, mas principalmente, um musical que nos lembra do nosso potencial como seres humanos de praticar a empatia, a compaixão e o amor ao próximo. No meio do caos e da tristeza, nós conseguimos encontrar amor e amizade, e é apenas isso que Come From Away quer de seus espectadores, que eles saiam do teatro renovados e cheios de esperança pelas maravilhas que a humanidade é capaz de fazer.

No mundo intolerante que vivemos hoje em dia, Come From Away é o musical certo na hora certa.

Come From Away está em cartaz no Gerald Schoenfeld Theatre, 236 West 45th Street, em Nova York.

Ficou interessado? Escute a trilha completa no Spotify e assista a alguns vídeos promocionais.

 

 



10 coisas que Wicked Brasil deixou saudades e os 10 motivos para assistir Les Misérables

Como a grande maioria sabe, o palco do musical Wicked deu lugar para a segunda montagem brasileira de Les Misérables. Mas enquanto muitos fãs ainda não conseguiram superar a saudade de Oz, outros já se preparam para se aventurar nas barricadas de Paris.
Nós do Musical Cast, juntamente com Paula Kalisak e Daiane Bombardelli da “Wicked Family”, assistimos a primeira preview do Les Misérables, que aconteceu no dia 26 de Fevereiro de 2017, e discutimos os muitos aspectos que Wicked deixou e o que o Les Mis está trazendo de novo.
Então depois de muito bate-papo, conseguimos realizar duas listas: 10 coisas que Wicked Brasil deixou saudades e os 10 motivos para assistir Les Misérables.

10 Coisas Que Wicked Brasil Deixou Saudade

1. Uma das coisas que mais sentiremos falta é entrar no Teatro Renault e ter a visão impactante do dragão no alto no palco. Era um detalhe que fazia tudo parecer tão mais mágico e dava a sensação de que havíamos chegado a Oz.

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2. A mensagem transmitida era retratada de forma tão sutil e tão delicada que foi impossível não derramar algumas lágrimas com os temas que Elphaba, Glinda e companhia retratavam, desde o bullying até a amizade verdadeira.

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3. Não podemos negar que, sem dúvidas, Wicked teve o maior fandom para um único musical, e a interação que o elenco e a produção tiveram com todos é algo que ficou marcado. Desde as lives que todos amavam ver, até as interações nas redes sociais, sempre havia menção a alguém e todos os artistas eram muito atenciosos.

4. Os bastidores! Foi criado o Ticket Esmeralda lá pelo meio da temporada para que os fãs pudessem desvendar os segredos do musical e, se dessem sorte, poderiam encontrar alguma surpresa no caminho. Sem contar que os atores sempre apareciam lá pra falar com os turistas de Oz.

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5. “Não quero mais limites, cansei de obedecer.” – não havia uma só pessoa que não saísse cantarolando alguma música. As canções combinavam tanto com as cenas onde foram inseridas que duvidamos que você não tenha pensado em alguma quando viveu um momento parecido.

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6. “Popular! Te ensino a ser popular!” – a expectativa que todos tinham no início da semana para saber se haveria sessão popular na quarta-feira daquela semana. Era uma chance de ver os covers em ação sem judiar do bolso, alem de serem as sessões mais animadas, sem dúvida.

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7. Se havia uma coisa que deixava todos ansiosos e animados era o Stage Door. Era onde o público podia tirar fotos, pegar autógrafos e conversar com os atores. Era loucura? De fato. Ficava tão cheio que demorava mais para você chegar perto de um dos atores principais do que gastar suas economias na lojinha do musical.

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8. Uma das inovações foi a sessão de Halloween, a famosa Sessão Cosplay. Uma noite em que o fãs puderam se fantasiar como os personagens do musical. Foi legal ver tantas Elphabas, Glindas, Fiyeros, Nessas e tantos outros tão bem caracterizados. Houve até premiação!

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9. “Meu instinto chama e me faz tentar desafiar a gravidade” – Até foi falado em um dos episódios do podcast que Wicked tem um dos melhores finais de primeiro ato. Todos vibravam com o voo que Elphaba fazia e selava seu destino como a Bruxa Má do Oeste. Um momento tão mágico que era impossível não se emocionar.

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10. Por fim, temos que citar as amizades que foram criadas por causa do musical. Foi um tal de criar grupos no whatsapp, no facebook e páginas no instagram para discutir a sessão daquele dia, qual eram suas reações do musical e coisas assim. Wicked, tendo amizade como um dos temas principais, criou um grupo de fãs alucinados pelo musical que podiam compartilhar esse amor com outras pessoas e, assim, mostrar o mundo musical.

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10 Motivos Para Deixar Wicked um Pouco pra Trás e Ir Assistir Les Misérables

1. O elenco infantil! As crianças são um show a parte. Cossete e Eponine são vistas primeiramente como crianças e todas as atrizes mirins que dão vida às duas são incríveis. Mas quem acaba roubando a cena são os atores mirins que interpretam Gavroche. Todos são cativantes!

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2. O coro é um dos melhores que já vimos na vida. O elenco está afinadíssimo e nos faz arrepiar desde a primeira linha da primeira canção até a última palavra da ultima música, causando sérias crises de choro no público.

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3. A orquestra regida por Paulo Nogueira não está ali apenas para fazer “música de fundo”. Desde o primeiro acorde é notável que a música é a alma do musical e contribui muito para a essência das performances.

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4. (SPOILER) O suicídio de Javert no segundo ato com certeza é uma das cenas mais bem feitas do musical. A atuação de Nando Pradho, sua voz, a música e os efeitos contribuem para que a cena pareça muito real.

5. As projeções foram feitas para ajudar a complementar o cenário e são muito bem feitas, colocadas em momentos estratégicos. Pela primeira vez projeções são usadas de forma inteligente no cenário de um musical aqui no Brasil.

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6. O CENÁRIO (!) que está muito bem feito, desde ao redor do palco até as janelas dos prédios que os atores utilizam para dar veracidade às cenas. Mas a barricada da revolução é o que mais merece destaque. Nós vemos a parte de trás, onde acompanhamos a história pelo ponto de vista dos revolucionários e temos a impressão de que ela está lá para proteger a platéia.

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7. O som muito bem equalizado e o uso do surround sound nas cenas de batalhas faz a gente se sentir dentro da história.

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8. O elenco reúne grandes nomes do teatro musical brasileiro em papeis de destaque, sendo encabeçado pelo espanhol Daniel Diges como Jean Valjean. O elenco ainda conta com Nando Pradho, Kacau Gomes, Laura Lobo, Clara Verdier, Filipe Bragança, Pedro Caetano, Andrezza Massei e Ivan Parente entre tantos outros atores talentosos.

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9. A mensagem transmitida por meio de seus momentos significativos. Podemos ver uma situação política que é resolvida de uma maneira não tão certa, mas que mostra o que pode ser visto na realidade francesa histórica.

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10. E, por fim, todos saímos de dentro do teatro numa emoção única que apenas Les Misérables pode transmitir, e é aquele tipo de emoção que nos faz ficar pensando por dias a fio sobre a temática e sobre nós mesmos dentro de uma sociedade. É aquele sentimento de “eu preciso ver de novo!”.

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Minha Jornada para Falsettoland

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ATO I
Four Jews in a Room Bitching

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Thrill of First Love

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Marvin at the Psychiatrist (A Three-Part Mini-Opera)

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I’m Breaking Dow

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March of the Falsettos

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Father to Son

Matthew-McConaughey

ATO II
Welcome to Falsettoland

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A Day in Falsettoland

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Something Bad Is Happening

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Days Like This

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Unlikely Lovers

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You Gotta Die Sometime

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What Would I Do?

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Falsettoland (Reprise)

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Conclusão:

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Apesar da brincadeira acima, eu quero falar sério sobre Falsettos. Afinal, mesmo sendo uma comédia musical, a obra ainda trata de temáticas sérias e possui uma mensagem muito importante: a aceitação.
Para quem não conhece e se interessou, Falsettos é o mais recente revival de uma trilogia de peças Off-Broadway que começou em 1979 com In Trousers, seguida por March of the Falsettos (1981) e terminando com Falsettoland (1990). A trilogia conta a história de Marvin, que aceita sua orientação sexual na vida adulta e precisa lidar com as mudanças que isso vai trazer para sua vida e a de sua família, já que ele, além de ser casado, tem um filho de 12 anos.
Na montagem mais recente da peça, a primeira parte da trilogia foi eliminada (com exceção de uma música) e as duas partes restantes são apresentadas como uma única peça de 2 atos. O revival foi aclamado pela crítica teatral e atualmente é o grande favorito para a categoria de Melhor Revival no Tony desse ano.
E isso é muito fácil de compreender: as composições de William Finn são marcantes, suas letras são ácidas e ele consegue balancear doçura e ferocidade naturalmente. Em raros casos a fórmula “você vai rir e chorar” está tão bem representada.
Junte a isso a mensagem que mencionei no começo, sobre aceitação. Mais do que aceitar uma orientação sexual, Falsettos fala sobre se aceitar como ser humano, como mãe, como filho, como amante. Sem entrar em detalhes, acredito ser uma peça sobre personagens, em que apenas eles importam: seu crescimento, seu desenvolvimento e sua busca por uma identidade e posição na vida.
A última performance da peça foi filmada e será exibida em breve na televisão americana. Enquanto isso, o que nos resta é escutar essa trilha maravilhosa e nos emocionar com essa linda história sobre cada um de nós.

  

La La Land: Mais que um filme, uma experiência

Falar de La La Land é falar da história de Hollywood. O filme de Damien Chazelle, que vem impressionando plateias pelo mundo todo, consegue entrar para a história do cinema desde sua concepção inicial.

Na década de 1970, com a baixa moral americana causada pela guerra, o cinema musical foi perdendo seu espaço nas salas de cinema para dar lugar a filmes mais viscerais e realistas, que refletiam o estado de espírito da sociedade da época. Por diversas vezes houve a tentativa de retomar o gênero, mas em meio a produções de baixa qualidade ou desinteresse do público, o cinema musical ficou restrito a um nicho. Conhecendo essa história, é impressionante pensar que em algum momento Chazelle resolveu que, em uma das épocas mais instáveis e de baixa moral das últimas décadas, a solução talvez fosse reviver aquela alegria de outrora.

Em um cenário repleto de notícias de instabilidade política, loucos governantes e ataques terroristas, somos presenteados com 120 minutos em um mundo colorido de esperança, amor e poesia e é exatamente disso que precisávamos. Damien sabe tão bem o que está fazendo que ainda alivia nossa transição na cena inicial com uma tomada contínua das rádios dos carros sendo abafadas pela melodia alegre que estaria para começar.

Essas cenas contínuas (ou planos-sequência), que não são só uma marca do longa, mas de todos os musicais da era de ouro, representam também uma retomada artística e estética do que no passado tornou o gênero tão popular. Quando os primeiros musicais teatrais começaram a tomar o cinema, existia um grande debate sobre a dificuldade de se adaptar grandes números para a tela. A solução na época foi evitar cortes e manter um plano geral aberto, na tentativa de simular nossa visão em um teatro. Com o passar dos anos e a mudança do cinema, os números musicais foram ganhando cortes, ângulos fechados que escondem o cenário (cof cof les mis cof cof) e as câmeras digitais finalmente conseguiram dar a cara do cinema contemporâneo aos musicais.

Até La La Land chegar e nos relembrar que o que era feito antigamente tinha seu valor e, na maioria das vezes, muito mais sentimento. E sentimento é a base dessa obra que conta uma história de amor ao mesmo tempo em que nos explica o que é o jazz na sua própria trama. Preste atenção na explicação que Sebastian dá para Mia sobre como funciona o jazz, ele está apenas nos contando a história do filme que estamos vendo, do começo ao fim.

Mas a obra não estaria completa sem a linda música de Justin Hurwitz, responsável também pela trilha incrível de Whiplash, e pelas letras da dupla teatral Pasek e Paul. As canções do trio vão nos carregando a cada estação da história e crescendo junto com o relacionamento dos personagens, quase como se tudo fosse orquestrado para encontrar pontos emocionais em cada um de nós.

Além disso, foi muito bem planejado o uso de referências pelo filme, não só cinematográficas, mas também teatrais. Por toda a internet já existem diversos vídeos e matérias comparando cenas e temas com filmes e composições da era de ouro, demonstrando outro grande trunfo da produção: conseguir remeter sutilmente ao fator nostalgia em cada um de nós ao mesmo tempo em que apresenta algo novo e vivo.

E as atuações de Emma Stone e Ryan Gosling contribuem muito para isso, já que os dois representam essa nova face do cinema: jovens talentosos e comprometidos que querem ser melhores profissionais, que estão dispostos a aprender piano, sapateado, canto e o que mais precisarem para contar uma história.

La La Land resgata o passado para trazer aquilo que pode ser o futuro do cinema, e tudo isso vindo das mãos de um jovem diretor, produzindo apenas seu segundo filme.

Não concorda comigo? Acha que é muito barulho por pouca coisa? Não tem problema, cada um tem seu gosto e seu momento, e nem tudo toca a todos da mesma forma, mas peço apenas uma coisa. Se puder, tente ver La La Land como todos devemos assistir a filmes: desligando-se do mundo exterior e focando apenas no que está acontecendo na tela. Quem sabe se desprendendo do mundo, você possa deixar o seu tolo sonhador voar.

Já viu o filme? Então aproveite e reviva essa trilha maravilhosa no player abaixo:

Os Grandes Flops da Broadway, parte 1

Nada é eterno no mundo do teatro musical, nem mesmo a montagem de Phantom of the Opera na Broadway. Muitos musicais esperavam ficar pelo menos alguns anos em cartaz, mas não passaram de meses ou semanas (ou até mesmo dias!). Há alguns fracassos (ou “flops”) da Broadway que foram totalmente esquecidos , enquanto outros são aclamados pelo público até hoje apesar de toda a critica negativa.
Vamos listar aqui apenas cinco dos maiores fracassos da Broadway (apresentados ao público entre os anos 60 e 80), mas que merecem ser lembrados, seja pela qualidade do material, seja por fatores históricos.

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Breakfast at Tiffany’s
Estreia: nunca teve estreia oficial
Número de sessões: 4 previews (12 de dezembro de 1966)

Um dos maiores fracassos da Broadway, que não chegou nem a abrir oficialmente, foi a versão musical do livro e filme A Bonequinha de Luxo. Mesmo com grandes nomes na produção como Bob Merrill (letrista de Funny Girl) e Mary Tyler Moore interpretando a protagonista, o musical já sofria desde os primeiros chamados try-outs, pré-estreias para testes fora de Nova York. O libreto como era no primeiro try-out na Filadélfia foi totalmente descartado e quando o espetáculo chegou a Boston outro libretista foi contratado, fazendo com que o diretor original Abe Burrows (Guys and Dolls e How to Succeed in Business Without Really Trying) também saísse da produção. Quando o musical chegou à Broadway decidiram mudar o nome do espetáculo para Holly Golightly. Durante as previews, pré-estreias antes da estreia oficial, os atores recebiam material novo algumas horas antes da cortina subir. A decisão de fechar a produção foi do produtor David Merrick, que foi até o The New York Times publicar sobre o ocorrido, dizendo preferir fechar a produção a fazer o público perder tempo, mesmo já com grande procura de ingressos. Na última preview, as músicas foram gravadas ao vivo e lançadas em vinil. Em 2001, as composições foram gravadas com alguns atores originais e lançadas em CD pelo selo “Original Cast”, famoso por produzir gravações obscuras de musicais. 

Imagens raras de ensaios do Breakfast at Tiffany’s

 


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Estreia: 9 de outubro de 1972
Número de sessões: 16 previews e 16 apresentações

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“Foothill” (pé da montanha), um dos setores do teatro que era dividido por ambientes

O que criadores mais almejam após um grande sucesso é criar uma outra obra com as mesmas proporções. Não foi o caso do Galt MacDermot e Gerome Ragni, que em 1967 cocriaram Hair com James Rado. A música de Dude continha a mesma vibe folk e country-rock de Hair, mas o libreto enfadonho não ajudou o musical. Contava a história de Dude, concebido por Adão e Eva após serem persuadidos pelo demônio Zero. Já na juventude, Dude precisa percorrer à “Highway Life” evitando as artimanhas de Zero, que quer possuí-lo. O musical era embalado pelos temas de drogas ilícitas e práticas sexuais e era encenado em um Broadway Theatre totalmente desconstruído para abrigar o musical. O palco no estilo arena, propositalmente cheio de terra, contava com passarelas que levavam até o mezzanino na tentativa de criar diferentes ambientes, como o inferno e o céu. Além disso, os atores eram constantemente elevados para diferentes lugares do teatro, onde ficavam vários microfones pendurados. A produção passou por vários problemas desde seu início, como atores desistindo e troca do ator principal durante previews. Após a estreia, a crítica detonou as falhas de som, já que os instrumentos eram espalhados por vários cantos do teatro, e o fato do espetáculo ser muito alegórico e ter uma história difícil de acompanhar. O musical fechou após 16 apresentações e os produtores tiveram um prejuízo de 800 mil dólares.

Trilha sonora completa do musical Dude

 

sarava_posterSaravá
Estreia: 12 de fevereiro de 1979
Número de sessões: 38 previews e 101 apresentações

Eis aqui um flop da Broadway com uma história bem famosa. Dona Flor é casada com Vadinho e ele é assassinado. Dona Flor casa novamente com Dr. Teo e o fantasma de Vadinho volta para atormentar Dona Flor. Sim, a famosa obra de Jorge Amado, Dona Flor e Seus Dois Maridos, já foi montada na Broadway em formato

Uma das fotos do raro programa de luxo
Uma das fotos do raro programa de luxo

de musical. Mesmo com Tovah Feldshush, famosa pela peça Yentl no papel de Dona Flor e composições de Mitch Leigh, consagrado pelas músicas de Man of La Mancha, Saravá cometeu o erro de abusar de propagandas que o vendiam como um musical divertido e animado, quando na realidade não era nada disso. O musical teve sua data de estreia adiada três vezes, mas enquanto isso críticas pesadas já

tinham saído nos jornais e fizeram o público não ter interesse pelo show. Os críticos disseram que o musical era vulgar e tinha um toque de amadorismo: para que o público entendesse que o Vadinho visto no palco ao final do primeiro ato era um fantasma, o ator PJ Benjamin passava pelos corredores do teatro sussurrando “boo…”, na tentativa de imitar um fantasma. Outra coisa que não ajudou a produção foi o fato de, logo após a estreia, o musical ter sido transferido do Mark Hellinger Theatre para o Broadway Theatre. As críticas gerais após a estreia foram todas negativas

 


Comercial usado para divulgar o musical Saravá


Tovah Feldshue cantando duas a música tema do espetáculo
 

 

carrieposterCarrie
Estreia: 12 de março de 1988
Número de sessões: 16 previews e 5 apresentações

A rainha maior de todos os flops, Carrie perdeu a quantia de 8 milhões de dólares, o que mesmo hoje, com valores corrigidos, ainda é considerado dos maiores fracassos financeiros da Broadway. Carrie é baseado no livro de Stephen King sobre a garota com poderes de telecinesia que sempre sofreu abuso dos colegas de escola e da mãe fanática religiosa e que acaba por se vingar de todos com seus poderes.
Carrie era uma produção da Royal Shakespeare Company de Stratford, Inglaterra, que teve início em fevereiro de 1988 com Linzi Hateley no papel de Carrie e Barbara Cook interpretando a mãe dela, Margaret White. Após a primeira apresentação em Stratford, Barbara Cook decidiu deixar o elenco depois de ser quase decapitada pelo cenário, o que deu espaço à entrada de Betty Buckley, que já tinha feito o filme Carrie (1976) como a professora de educação física. Após a temporada inicial de 4 semanas em Stratford, mesmo com críticas negativas, os produtores resolveram investir oito milhões de dólares para levar a produção inteira para a Broadway. Desde a produção de Stratford até a abertura oficial na Broadway, o roteiro passou por diversas mudanças diárias, chegando a causar tumultos nos

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Figurino dos adolescentes de gosto bem duvidoso

bastidores quando os compositores apareciam meia hora antes da cortina subir com uma música nova, exatamente o que aconteceu na noite da primeira preview na Broadway. O fracasso de Carrie se deu por inúmeros fatores, mas basicamente o musical acabou fechando devido à crueldade das críticas especializadas. A atuação de Linzi Hateley e Betty Buckley, juntamente com as composições Dean Pitchford (responsável pela música de sucesso de Fame e Footloose), sempre foram os pontos altos do espetáculo, mas o libreto muito mal escrito, que confundia o público, foi um dos grandes responsáveis pelas críticas negativas. Quem não tinha lido o livro ou visto o filme antes não fazia ideia do que se passava, já que em nenhum momento eram citados os poderes da Carrie. A coreografia de Debbie Allen (coreógrafa do filme e da série de TV Fame) foi excessiva e não casava com a história, muito menos com a música. Os figurinos também não eram coerentes, já que adolescentes jamais usariam as roupas apresentadas que abusavam de elastano e alguns figurinos eram basicamente roupas de toureiro. O cenário mínimo também não ajudava a contar a história e os efeitos especiais eram considerados pobres. A famosa cena da destruição ao final do espetáculo era feito com raio laser vermelho, faíscas e muita gritaria do elenco. Apesar de o musical ter sido massacrado pela crítica, a atriz Betty carrie2Buckley sempre conta em entrevistas como era surreal a receptividade ao final de cada espetáculo, as luzes se apagavam e as pessoas começavam a vaiar, mas no instante em que todos voltavam para os agradecimentos, o teatro vinha abaixo com o público ovacionando de pé. Com isso, após o anúncio do encerramento após somente 5 apresentações o musical se tornou cult, pois era o ingresso mais desejado da Broadway e também por todas as questões negativas que fizeram as pessoas correrem para conseguir os últimos ingressos.

Nos anos 2000, os criadores envolvidos voltaram a trabalhar no musical , reescrevendo o libreto e compondo novas canções. Apenas em 2012 Carrie teve uma segunda chance, com seu primeiro revival Off-Broadway, já com todas as mudanças feitas. Após esse revival, os direitos do espetáculo foram colocados à venda e nos dias de hoje Carrie é considerado um dos musicais favoritos para se montar em escolas.

 

Betty Buckley e Linzi Hately fazendo jus aos personagens e a história
na embelmática “And Eve Was Weak”
 

 

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Estreia: 28 de abril de 1988
Número de sessões: 17 previews e 68 apresentações

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David Carroll e Judy Kuhn na proudção original da Broadway

Ter um “concept album” e singles que estouraram nas paradas britânicas e até nas americanas não é exatamente a fórmula do sucesso. Em 1984, o álbum Chess de Björn Ulvaeus, Benny Andersson e Tim Rice entrou rapidamente na lista de álbuns mais vendidos no Reino Unido, juntamente com os singles “I Know Him So Well” e “One Night in Bangkok” (que chegou a ficar em terceiro lugar na Billboard americana). Mesmo com o sucesso da montagem original do West End que ficou três anos em cartaz, entre 1986 a 1989, o pior dos erros desse musical não foi ser levado à Broadway, mas sim a tentativa de reformulá-lo para o público americano .
Para a versão americana, o dramaturgo Richard Nelson foi convidado para reescrever a história, e ele não teve misericórdia alguma com o musical original. Na história original, os Estados Unidos perdiam para a União Soviética em um campeonato de xadrez, ou seja, havia a preocupação de não ferir o ego dos americanos apresentando a história dessa forma. Mas não foi apenas isso que mudou. Foram acrescentadas músicas novas, personagens novos e diversas subtramas que deixaram o musical maior do que já era no West End. Enquanto na versão original londrina a produção era praticamente sung-through (toda cantada), na versão americana um terço do espetáculo era falado, em um esforço de explicar toda a história. Muitos acreditam que a melhor coisa acrescentada à versão americana foi a música “Someone Else’s Story”, que até hoje é considerado o melhor solo feminino do musical. 
A noite da primeira preview foi praticamente catastrófica. O musical teve 4 horas de duração, duas horas cada ato, com 90 minutos de intervalo devido a problemas no cenário, que era um dos mais tecnológicos da época. Na noite de estreia, o musical já havia sido reduzido para 3 horas e 15 minutos. Chess sempre teve 80% da capacidade do teatro vendido, o que não era ruim, mas a maioria dos ingressos era vendida por valores especiais e reduzidos, de forma que, mesmo se o teatro estivesse lotado todas as noites, não seria possível pagar os gastos com o espetáculo. Após o fracasso na Broadway, Chess nunca mais foi remontado no West End ou na Broadway de forma completa, sempre sendo apresentado no formato “in concert”. A versão da Broadway foi totalmente esquecida e poucos elementos, como a música “Someone Else’s Story”, foram adicionados à versão existente hoje.

Imagens promocionais do musical Chess na Broadway
 

Precisamos falar sobre Dear Evan Hansen

O ano de 2017 mal começou, mas tudo indica que este será o ano de Pasek e Paul. No dia 8 de janeiro, os dois receberam um Globo de Ouro pelo trabalho nas canções de La La Land, filme de Damien Chazelle que aparenta ser o grande favorito para o Oscar. Mas enquanto todas as atenções estavam focadas no trabalho cinematográfico da dupla, um modesto e intimista musical ia tomando a cena teatral de Nova York.

Após um breve período em cartaz no Off-Broadway, estreava na Broadway em 4 de dezembro Dear Evan Hansen, um musical original com letra e música de Pasek e Paul, libreto de Steven Levenson e direção de Michael Greif (Rent e Next to Normal).

Na peça é contada a história de Evan Hansen (Ben Platt), um adolescente que sofre de problemas de ansiedade e se considera invisível entre seus colegas de escola até que o suicídio de um estudante faz com que as atenções se voltem para ele.

Sem entrar em muitos detalhes, para preservar as surpresas, o que se desenrola a partir daí é uma história de superação, aceitação e principalmente de busca por identidade. Podem parecer temas batidos, mas são tratados de uma maneira tão verdadeira e íntima que, mesmo sem ter passado pelas situações vividas pelos personagens, é impossível não se deixar tocar por composições como Waving Through a Window, que refletem a perfeita transposição para uma canção de como é viver com transtorno de ansiedade social.

Não podemos deixar de citar o incrível elenco formado por Ben Platt (The Book of Mormon, Pitch Perfect), que empresta sua doçura ao papel principal, Rachel Bay Jones (Pippin) como a mãe de Evan e Laura Dreyfuss (Once, Glee) como a “dream girl” de Evan.

Desde sua estreia o musical vem sendo elogiado e citado como o grande favorito para o Tony desse ano, além de ser classificado como o “Rent dessa geração” já que, assim como aconteceu em 1996, Dear Evan Hansen trata dos problemas dos jovens atuais, seus medos e suas paixões de uma maneira única, passando uma sensação de frescor e renovação.

Respeitando o passado e olhando para o futuro, Dear Evan Hansen é o teatro musical apresentando a geração Z (centennials) para as gerações anteriores, na tentativa de criar empatia, união e passar uma mensagem de amor… mais ou menos como Rent fez 21 anos atrás.

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Para quem ficou curioso, separamos vídeos com apresentações de algumas das músicas do espetáculo. A trilha completa será lançada no dia 3 de fevereiro. Dear Evan Hansen está em cartaz na Broadway, no Music Box Theatre.

 

10 motivos para você se viciar agora em Hamilton

Por Roberta Lessa

Se você não estava escondido debaixo de uma pedra durante a última cerimônia de entrega dos Grammys, em fevereiro deste ano, já deve ter ouvido falar pelo menos uma vez em Hamilton, a nova sensação do teatro musical americano, principalmente entre o público jovem.

Esbarrei com o musical pela primeira vez nesta ocasião, quando o elenco, que concorria na categoria de Melhor Trilha Sonora, apresentou o número inicial do show, transmitido ao vivo pela premiação. Fiquei de fevereiro a junho para pesquisar mais sobre esta performance, que foi a que mais me chamou à atenção durante a premiação, mas, quando resolvi corri atrás, foi um caminho sem volta: foram três meses de completa fascinação e obsessão pelo musical, tão imersa a ponto de ficar totalmente alheia a qualquer outro tipo de arte ou entretenimento durante todo esse período.

Demorei esse tempo todo também para conseguir resumir em apenas 10 itens (será mesmo?) as razões pelas quais todo amante da cultura pop deveria estar surtando por essa obra de arte.

 

O contexto

Você não vai saber lidar com tanta representatividade envolvida

 

Imagine um musical sobre a vida e carreira de uma das mais desconhecidas figuras políticas americanas, o primeiro Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Alexander Hamilton. Já parece chato e meio sem noção mesmo que você goste de musicais ou de história, mas e se eu te dissesse que até os maiores haters desses dois elementos estão caindo de amores pela peça, principalmente o público jovem, que não tem tanta familiaridade com frequentar a Broadway?

Isso aconteceu porque os jovens americanos se encantaram com a proposta do musical: a América como ela foi, contada pela América como ela é agora. De forma pioneira, Hamilton assim como seu antecessor “In the Heights” é um musical broadwayano a ser inteiramente cantado em rap, hip-hop, R&B, dancehall e outros ritmos muito distantes do tradicional repertório do centro teatral mais famoso do mundo.

 

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Por ser preenchido por gêneros musicais geralmente compostos e cantados por artistas não brancos, nada mais justo do que refletir essa escolha artística no elenco: pela primeira vez, temos atores negros ou latinos interpretando ícones historicamente brancos, como o próprio Hamilton (Lin-Manuel Miranda), o primeiro presidente americano George Washington (Christopher Jackson) e Thomas Jefferson (Daveed Diggs). Na verdade, todos os membros do elenco são não-brancos, exceto o rei da Inglaterra à época, George III, por motivos justamente caricaturais.

E isso não é apenas temporário, é uma exigência do próprio criador que todas as versões feitas, em todas as cidade e países e formatos, sigam esta recomendação durante a escalação dos atores. Que forma melhor de atrair a juventude do que transbordando representatividade, fazendo com que ela se sinta, pela primeira vez, parte da história da fundação de seu próprio país?

 

As músicas

O caminho sem volta de escutar a trilha sonora

O tópico mais importante, creio eu, afinal, sem músicas não há musical. Como nesse caso a prática faz mais efeito que a teoria, já vou embutindo aqui a playlist do Spotify com a trilha-sonora inteira para que você possa ouvir – mas só depois de terminar a lista toda. Hã!

Para quem é dos inglês, o site Genius tem praticamente um dossiê com o significado de cada um dos 8343219765 versos da trilha sonora. Tô avisando, é um caminho sem volta, depois não reclama!

O criador do musical, Lin-Manuel Miranda (é, o da J-Lo! O da Moana! Da Pequena Sereia live-action!) , que criou e compôs todas as letras e melodias e ainda estrela como personagem principal (SIM!), escolheu o rap como forma principal de narrativa por acreditar na capacidade deste gênero de contar histórias, principalmente a de uma figura tão eloquente quanto Hamilton.

 

 

Aula de história

Senta que lá vem (muita) história

Justamente por se sair tão bem com esse método narrativo, Hamilton é uma aula absurda de história. Eu garanto que, depois de duas ouvidas, a juventude americana pode absorver muito mais sobre a Revolução Americana do que em um ano de aulas nada dinâmicas da disciplina.

Sei disso porque eu, brasileira, tendo estudado muito superficialmente – e há um bom tempo – sobre este episódio da história americana, acabei gabaritando este quiz depois de ler as letras apenas duas vezes. Sério, professores, incorporem estes métodos nas aulas de vocês, os alunos agradecem (abaixo, professores que entenderam o recado e se apresentaram no show de talentos da escola deles com duas músicas da peça hahahaha!).

 

 

Elenco

Deuses olímpicos, também conhecidos como atores da Broadway

Sério. Nem sei quais dos membros do elenco destacar aqui, porque todos são maravilhosos. É claro, depois de um ano em cartaz, a maior parte do elenco já foi substituída, mas para você que é pobre como eu e terá no máximo a oportunidade de ouvir a trilha sonora no seu fonezinho de ouvido, é a voz dessa galera que está eternizada na gravação.

Vou jogar o meu preferido e sair correndo: Leslie Odom Jr. Mentira, tenho que falar de quase todos eles mesmo. Selecionemos, então, aqueles que foram indicados aos Tony Awards desse ano.

 

NEW YORK, NY - FEBRUARY 15: Actor Leslie Odom, Jr. performs on stage during "Hamilton" GRAMMY performance for The 58th GRAMMY Awards at Richard Rodgers Theater on February 15, 2016 in New York City. (Photo by Theo Wargo/Getty Images)
O meu preferido, o citado acima Leslie Odom Jr., interpreta o primeiro amigo e o pior inimigo de Hamilton, Aaron Burr. A combinação de seus talentos em atuação, canto e dança são, para mim, a alma do musical. É impossível não se relacionar com o personagem, sendo também impossível, e nada frustrante, odiar o arquirrival do protagonista. Ah, ele acabou ganhando o prêmio de Ator Principal, mesmo concorrendo contra o próprio Lin-Manuel Miranda.

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A categoria de Ator Coadjuvante dos Tony inclui cinco indicados; em 2016, três deles vieram de Hamilton: Christopher Jackson (o imponente George Washington), Jonathan Groff (o hilário rei George III) e Daveed Diggs, vencedor da categoria, cuja performance como Marquês de Lafayette, no primeiro ato, e Thomas Jefferson, no segundo, é de tirar o fôlego. Ele é o intérprete dos versos mais rápidos e incríveis do show com sua atuação dupla. Infelizmente, assim como Leslie e Lin, ele também deixou o elenco da peça, e agora seguirá carreira na TV e no cinema, estreando em Extraordinário, ao lado de Jacob Tremblay e Julia Roberts.

Na ala feminina, Renée Elise Goldsberry (Angelica Schuyler, cunhada de Hamilton) garantiu o prêmio de Atriz Coadjuvante. Um dos momentos mais sensacionais – se não o maior deles – do musical é dela, durante a música Satisfied. Que. Intensidade. Só ouvindo.

 

Lin-Manuel Miranda

O criador do troço todo

Deixei o intérprete do personagem principal de fora do item anterior porque, sendo o protagonista, compositor e idealizador do projeto, ele é um motivo por si próprio.

Em 2009, Lin foi convidado pela Casa Branca para se apresentar em um evento de arte e poesia organizado pela presidência de Obama. Segundo a programação, ele apresentaria um número de seu primeiro musical, In the Heights (outro caminho sem volta, que também merece uma lista como essa aqui), que fazia sucesso nos palcos na época e que também ganhara o Tony Award de Melhor Musical. No entanto, Lin acabou surpreendendo os presentes ao informar que substituiria seu número conhecido por algo novo, de um projeto inédito que ele estava desenvolvendo ao lado do orquestrador Alex Lacamoire: foi a primeira vez que Hamilton foi apresentado ao mundo.

 

Quando Lin afirma, no vídeo acima, acreditar na combinação entre a vida de Alexander Hamilton e a cultura do hip-hop, os convidados do evento riram. Hoje, sete anos depois, quem está rindo mesmo?

 

 Coreografias

Os movimentos que tornam necessário assistir cada cena mais de uma vez

Outro elemento fundamental de musicais como esse são as coreografias, e as de Hamilton são sensacionais. O coreógrafo Andy Blankenbuehler também levou para casa um Tony Award por esse trabalho. É claro que, se você procurar, encontra o espetáculo inteiro filmado para download na internet, mas assistir desta forma é desaconselhado pelo próprio Lin. No entanto, você pode ter um gostinho das coreografias através de vídeos no YouTube nos quais Andy exibe sua genialidade, explicando a razão de ser de cada passo de dois trechos de My Shot e Yorktown.

 

 Dançarinos

Também conhecidos como semi-deuses da Broadway

Todos os dançarinos de Hamilton, além de executar com perfeição e energia cada passo do show, por mais de duas horas, fazem parte também do coro. Além disso, alguns deles, como a diva Carleigh Bettiol, chegam a substituir os atores principais quando eles não podem se apresentar (quando não dança, ela interpreta Eliza, esposa de Hamilton). Talento pouco é bobagem.

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 Cenografia

Rewiiiiiiind…

Como se não bastasse o efeito maneiríssimo de se ter um palco giratório em um musical, Hamilton tem dois. Que giram em direções opostas. O efeito que isso traz à produção é INCRÍVEL, principalmente em momentos como Ten Duel Commandments, onde um duelo é encenado, e Satisfied, quando… não vou dar spoilers. Quem tiver interesse em saber o que acontece, dá uma buscadinha rápida na internet (ou então compra uma passagem para Nova York, o que for mais fácil para você hahaha).

 

Incentivo à educação

Foco na juventude

Como se já não bastasse esse altíssimo nível artístico, Hamilton tem um papel social, ajudando a desenvolver a educação dos jovens novaiorquinos de maneira ainda mais direta do que simplesmente sendo o novo produto cultural preferido deles: a produção realiza sessões de matinê especiais para alunos de escolas públicas, que têm a oportunidade de assistir ao espetáculo, cujos ingressos estão esgotados até janeiro do ano que vem, pelo preço de dez dólares, quando o ingresso, na verdade, custa de 200 a 3 mil doláres na mão de empresas de revenda. Além disso, oficinas de rap foram oferecidas a esses estudantes, que puderam desenvolver suas habilidades no gênero.

 

Prêmios

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Hamilton ganhou um total de 11 das 16 estatuetas aos quais concorreu nos Tony Awards de 2016: os já citados Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Coreografia, além de Melhor Direção, Melhor Trilha Sonora, Melhor Figurino, Melhor Orquestração, Melhor Iluminação, Melhor Orquestração e, é claro, Melhor Musical. Deu até peninha dos outros indicados. Mentira, nem deu.

 

BÔNUS

É claro que eu não iria conseguir fechar em dez motivos, né?

O décimo primeiro deles, caso ainda não esteja convencido, é a iniciativa #Ham4Ham. Acontece da seguinte forma: todos os dias, assentos nas melhores fileiras do teatro Richard Rodgers, onde Hamilton é encenado atualmente, são sorteados a pessoas que não tiveram a oportunidade de comprar ingressos para aquela sessão. Como se não bastasse a oportunidade, os sortudos ainda pagam o preço promocional de dez dólares. Por quê? Alexander Hamilton é o rosto na nota de dez dólares. Dessa forma, você dá um Ham pelo Ham (daí a hashtag!).

Para atrair o público para este sorteio (como se precisasse!), o elenco faz, semanalmente, algum tipo de performance na própria calçada do teatro. Quando não tem microfone disponível, eles improvisam com um megafone mesmo, e daí rolam apresentações maneiríssimas, como interações com os elencos de outros musicais, incluindo Os Miseráveis e Rent, paródias, inversão de papeis e muita, mas muita palhaçada. Selecionei alguns dos melhores:

Agora você já pode separar duas horinhas do seu tempo, correr na playlist ali de cima, abrir o o Genius (e, se necessário, o Google tradutor) e se perder nesse mundo comigo. Vem!